Carnamão

Apontamentos iniciais para uma peça baseada num político e na política

Um]

É possível acreditar num homem? Um homem pode acreditar noutro homem com base só naquilo que ouve e vê? E naquilo que sente? Porque é que isto é em princípio inalcançável? Ontem conheci um homem que podia ter sido outra coia, que diz dele mesmo, que tem duas vidas e sabe que ainda vai viver uma outra terceira vida. É um homem pequeno por fora e muito vasto, enorme por dentro na imensidão das suas emaranhadas paisagens do ser que é e não é. Esse homem é filho de um outro homem, um homem do campo que se tornou um sobredotado. Saiu da terra e trouxe para dentro dele as árvores e o céu. Dizia com orgulho que tinha lido a Guerra e Paz aos doze anos.

Dois]

Sentir é uma coisa sólida que interrompe a fluidez impermanente da carne. Fixa a carne como uma pedra num rio. Fixa a carne que quando sente se aproxima e agarra desesperadamente ao osso. Sentir é como uma árvore que se levanta na linha da planície de encontro ao céu e promete uma outra vida. Sentir é a promessa de outra vida que se manifesta por dentro da vida e lhe dá uma imunidade contra a desordem dos sem vida.

Três]

Nasceu uma árvore dentro de um homem, bem no centro do coração e os ramos transformaram-se em veias e as folhas em beliscaduras, lábios verdes que mordiam a carne e a empurravam para sentir. Esse homem procurava no mundo de preferência as coisas que o faziam sentir, abrindo folhas no corpo. Dizia esse homem: “procuro de preferência um bem que possa sentir a um que possa expor; aquilo que se vê, aquilo que atrai os olhares, aquilo que se aponta ao outro com uma admiração plena de surpresa, isso brilha por fora, mas por dentro é apenas miséria. Procuremos um bem que não se afirme pela sua aparência, mas que seja sólido, constante, com uma beleza interna e oculta; desenterremo-lo.”[1] Esse homem caminhava no mundo cheio de feridas, pequenos fogos que se acendiam no seu corpo e lhe ulceravam a pele, a carne, os ossos. Esse homem ardia por dentro e por fora e era objecto de admiração de todos os homens. Mas essa admiração doía-lhe como se fosse uma madeira em chamas, fogo que nunca se apagava e que o impedia de sair do meio da praça como se fosse uma estátua a arder. Esse homem apagava o fogo bebendo tudo o que podia, mas as labaredas não se extinguiam e aumentavam dia a dia.

Quatro]

Como misturar prazer e virtude? É possível construir uma mulher e um homem que tragam uma estrutura distinta — como uma natureza reconstruída? Em que cérebro se assemelhe a uma árvore em flor, os joelhos dobrados sejam iguais a um monte de pedras no topo de uma falésia em risco de derrocada, os braços dançando todos os abraços como um rio perdendo-se no mar?

Cinco]

O contágio é uma qualidade da arte que se desenvolve de geração para geração, de homem para homem. É através do contágio que o homem consegue desenvolver em si as capacidades de compreender os pensamentos de outros seres humanos, dos animais e das árvores, das pedras e das nuvens. O contágio é uma qualidade do corpo, uma inteligência própria que se manifesta próximo do sentir e o antecede. O contágio pode ser uma inflamação, uma transmissão, uma propagação, uma corrente que se liga e deixa passar abrindo espaços para serem ocupados. Um arrastão que impele a sair e a regressar como uma indomável e incontrolável manifestação do corpo. Do contágio surge a epidemia e a flor, a peste e a árvore ou o rio que inunda o ser. Sendo o contágio uma característica da arte, uma forma de doença que desequilibra os órgãos e os obriga a funcionar em excesso, traz por acréscimo capacidades de saber desconhecidas. Quem se deixa contagiar por objectos de arte sabe que aprende línguas desconhecidas e começa a falar com domínio insuspeito sobre zonas onde prevalecem as margens dos hieróglifos. Um hieróglifo é um mistério, um rabisco, um gatafunho, uma sombra que fala e se manifesta, um enigma por revelar com garras e unhas dedos longos e ou línguas compridas. Um hieróglifo é um segredo em movimento que se escapa sempre. Aquele que se deixa contagiar, que foi contagiado por ou sem querer pode depois vir a contagiar e contaminar os pensamentos de terceiros. Essa é uma das funções da arte. Encontrar mensageiros que fazem adoecer outros corpos e outros ouvidos ou bocas. Com o tempo e as viagens por dentro e por fora dos objectos de arte os corpos vão-se transformando e aperfeiçoando. Espera-se em sonhos que um dia nasçam bebés capazes de trazer agarrados neles a virtude e o prazer como uma ideia antiga. Esses bebés serão capazes de trazer já neles um contágio do passado que não se perca no contacto com os homens maduros. Os homens maduros erguem os bebés no ar e atiram-nos de armários e falésias para o mar só para que o medo neles desapareça. Mas o medo dos homens maduros contagia os bebés e cresce neles como árvores velhas ressequidas e sem folhas, velhos fantasmas dos ventos e dos mares.


[1] Séneca in A vida Feliz.

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